Rebel Promo: melhores contos!

13 jan Rebel Promo: melhores contos!

Como já dissemos em nossas redes sociais, recebemos muitos contos ótimos durante a última promoção que fizemos, valendo uma t-shirt da Abbey Dawn! Não foi fácil escolher um vencedor.

Acreditem, se fosse possível, premiaríamos várias das estórias que foram enviadas. Selecionamos alguns dos melhores textos, e vocês podem conferir logo abaixo. Mais uma vez, parabéns e obrigada a todos pela participação.

Betina de Oliveira Juliano
Ourinhos – São Paulo
Tomorrow

LEIA

TEN

20 de setembro de 2010

Dias, semanas, meses. Eu não sei bem há quanto tempo estou aqui, servindo de refém ao meu próprio corpo, como um gênio aprisionado em sua lâmpada, esperando angustiadamente por sua libertação.

Por todo esse tempo eu estive consciente, podia sentir. E eu sinto. Sinto muito. Sinto dor, solidão e confusão. Esses sentimentos parecem se embrenhar com o exclusivo e único objetivo de causar ainda mais dor. Eu não posso coloca-los para fora, não havia válvula de escape. Eu grito por ajuda, mas ninguém parece ouvir. Mas eu o ouço.

Todos os dias, aparentemente sempre no mesmo horário, eu recebo sua visita. É como um ritual, ele chega, deposita um beijo em minha testa, segura a minha mão e lamenta sobre o quanto eu faço falta. Após se despedir, ele segura meu rosto entre suas grandes mãos, sussurra que tudo ficará bem e deixa o local.

E eu quero acreditar nele, eu tento acreditar nele, mas eu não consigo. Não hoje, talvez amanhã.

30 de setembro de 2010

Passos pesados me despertam de meus pensamentos. O barulho de seus sapatos velhos e gastos contra o chão são rapidamente reconhecidos por mim. Ele se aproxima e como de costume deposita um beijo em minha testa e segura minha mão. Há algo diferente. Eu posso sentir. Mas o que? Como um raio que corta o céu em dias de tempestade, um soluço rompe do silêncio, e logo em seguida um melancólico e baixo choro pode ser ouvido. E a cada soluço emitido por sua boca meu coração se aperta. Porque ele esta chorando? Eu quero lhe abraçar, fazer o que eu tenho que fazer, mas eu não posso, eu não sei o porquê, apenas não.

“Eu sinto muito.”

Mais um soluço

“Não pude evitar, eu tentei. Juro”.

Agora está girando em torno de você.”

 “Amanhã é um dia diferente, espero que algo mude…”.

“Espero que 10 dias sejam o suficiente.”

Ele sente muito?

Pelo o que?

O que ele não pode evitar?

Está girando em torno de mim?

O que ele quer dizer?

O que tem que mudar?

Porque ele continua chorando?

O que está errado?

10 dias?

Suficientes para o que?

Eu quero gritar para que me responda, mas ele não escutaria.

9 de outubro de 2010

Não sei quanto tempo passou desde sua ultima visita. Mas de algum modo, naquele dia, eu sabia que seria ultima. É quase torturante como o tempo passa devagar dentro do meu abismo de pensamentos. Sinto de quando ele relembrava memorias, e eu podia ter a certeza que ele estava sorrindo, mesmo sem poder vê-lo. Sinto falta de quando ele dizia que tudo ficaria bem, mesmo não acreditando.

Sinto falta dele.

Ontem ouvi alguém dizendo que me resta um dia. As perguntas voltaram. E novamente eu não tinha resposta para nenhuma.

Um dia?

Para oque?

Para os 10 dias?

O que significam esse “10 dias”?

Porque ninguém nunca dizia?

Porque ninguém me respondia?

Isso é um jogo comigo?

Por que eles estão fazendo isso?

Quem são eles?

O que ocorreria amanhã?

 

E eu sei que eu não estou preparada para amanhã. E eu não sei como vou me sentir amanha

 

10 de outubro de 2010

Ouço a porta se abrir e logo muitos passos. O quê?

10

“Eu te amo”

9

Eu também

8

“Gostaria que me respondesse”

7

Eu respondi

6

Por que não me ouve?

5

“Sinto muito”

4

O que esta acontecendo?

3

“Adeus”

2

O que? Não se vá!

1

Eu me senti leve. Tudo estava em silêncio. E eu finalmente entendi o que estava acontecendo.

Eu estava morrendo.

Douglas de Araújo Ribeiro
Natal – Rio Grande do Norte
Give You What You Like

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Meu nome é Avril Lavigne, e eu sou profundamente apaixonada por um cara que não me ama.

Em um sábado à noite comum, eu estava bebendo um pouco para esquecê-lo em um barzinho perto da minha casa. O relógio mostrava ser uma hora da manhã, a noite estava muito bonita, porém, toda a sua beleza fora arrebatada por uma beleza ainda maior, a dele.

Ele estava bêbado, impotente, quase inconsciente no balcão do bar. “Essa é minha chance”, pensei. Mas o sentido falou mais alto, e o medo fez com que eu me contentasse em ficar observando-o da minha mesa, afinal, seria infrutífero tentar qualquer coisa com ele, sempre fora.

Meus pensamentos foram interrompidos por uma silhueta parada na minha frente, era ele.

Ele sentou-se ao meu lado, apoiou seu cotovelo na mesa e começou a olhar fixamente para mim. Eu, claramente, estava sem reação. Resolvi então apenas desviar meus olhos do seu olhar penetrante. Seu semblante passou – quase que instantaneamente – de sério para sorridente. Parece que ele só queria me assustar olhando para mim daquele jeito. Ele estava rindo, e eu, que continuava sem reação, optei por rir junto.

Nossa risada foi seguida por uma boa e longa conversa, já havíamos conversado por uma hora inteira. Foi o suficiente para que eu soubesse o motivo de ele estar ali naquela noite. Ele havia sido dispensando pela sua garota. Então, ele também estava ali para esquecer alguém.

Duas da manhã, estávamos rindo muito, pela primeira vez desde que o conheci eu me sentia à vontade perto dele, eu amava me sentir assim. Ele estava tão bêbado que eu duvido que ele se lembrasse o motivo pelo qual estava naquele bar brega, de madrugada, conversando com a garota que era secretamente apaixonada por ele há mais de um ano.

Depois de mais um tempo conversando, ele me chamou para ir à sua casa. Eu não soube como reagir na hora, mas eu não recusei, eu nunca recusaria nada a ele.

Chegando em sua casa, ele sequer acendeu a luz, e a única fonte de luz que havia dentro daquele quarto eram as luzes da rua que escapavam por entre as persianas. Era o suficiente para enxergá-lo, e foi o suficiente para ver que ele estava vindo ao meu encontro.

Eu pensei em acender um cigarro, quando suas mãos deslizaram na minha cintura, sua boca caminhava vagarosamente pelo meu pescoço e sua barba negra fazia cócegas no meu ombro direito. A essa altura eu já havia me entregado. Eu estava largada em seus braços fortes, esperando pelo seu próximo movimento e aproveitando cada minuto, afinal, aquela poderia ser a primeira e a última vez que ele me daria uma atenção tão especial.

Eu tinha toda a cena na minha mente, mas não tinha certeza do fim, então o deixei prosseguir. Não poderia ser tão ruim, eu estava dando-o o que ele gostava, e ele a mim, o que eu queria. Isso é amor? Talvez algum dia, mas agora não acenda as luzes, eu vou te dar o que você gosta.

Andréa Alves Rocha
Natal – Rio Grande do Norte
4 Real

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Alice sempre foi uma menina solitária, gastava seu tempo, horas, dias e meses em seu quarto, conversando com pessoas através de textos. E aquilo a fazia bem, sempre foi suficiente.

Até que um dia, Alice, sem intenção, conheceu Mariane, a garota mais popular do grupo online em que elas se relacionavam. Alice nunca pensou que seria possível, mas ela era a única pessoa daquele grupo que Mariane estava começando a gostar.

Meses de conversas, confissões, risadas e amizade foram passando e Alice sabia que aquela garota tinha algo de especial, até que um dia Mariane finalmente confessou: “Eu estou gostando de você“. E seu amor tinha, realmente, alguma coisa de puro e de ideal, que não se compadecia com os costumes de hoje.

Começava por ser discreto; Alice adivinhou, ou antes, percebeu que era amada, mas ela nunca tinha dito, nunca se atreveu a dizer-lhe, não por timidez ou respeito, mas simplesmente porque não tinha confiança de que algo assim poderia dar certo.

Alice ainda vivia com os pais, em outra cidade. Era uma garota tímida, não era feia mas se achava insignificante. Mariane era tão linda, tão talentosa quando cantava, e seu sorriso era o mais bonito que Alice já tinha visto. E tudo isso parecia desproporcional.

Alice não acreditava que poderia fazer Mariane feliz, por mais que ela a amasse, e isso a entristecia profundamente. Até que Alice resolveu ignorar que ela a amava.

– Por que não respondeu minhas mensagens?

– Porque não posso mais te prender a algo que nunca daria certo.

– O que você está falando? Você sabe que eu te amo. Como poderia dar errado?

– Eu também te amo, como nunca pensei que fosse possível. Mas eu estou sempre longe. O que eu faço quando você precisar de mim e eu não puder estar contigo?

– Mas você sempre esteve comigo.

– Você precisa de alguém de verdade, que possa te abraçar quando você tiver medo. Que te faça sorrir quando acorda. Eu não pareço real pra você e não sei se algum dia poderei ser.

 Eu sou de verdade, e sempre pensei que o que temos também é de verdade. Ou eu devo ser louca de sentir algo tão forte, pela primeira vez na vida e ter que acreditar que nada disso é real.

– Mas isso é suficiente pra você?

– Eu sou de verdade. Você é de verdade? Porque eu sei que quando eu te abraçar, eu não vou querer deixar você ir. Eu só preciso saber se você sente o mesmo.

Alice sofria, oprimida pela ideia de que estava prestes a perder a única pessoa que ela já tinha confessado amar na vida.

 Você tem minha alma, eu só queria que você soubesse.

– Então não desista de nós. Não me deixe ir, porque você também tem a minha alma. E isso parece tão certo, apenas te ter ao lado… Então, não me deixe ir. Eu não aguentaria ouvir você dizer adeus.

– Eu sempre vou estar presa a este momento, e o meu coração é seu. Isso é de verdade, o que temos é de verdade. Eu não vou desistir de nós. E te prometo que algum dia isso vai ser real.

– Vai ser real.

Em uma bela manhã, o único amigo de Alice que sabia sobre Mariane, a levou até uma praia. E quando Alice menos esperava, Mariane a surpreendeu; com os olhos cheios de lágrimas, parecendo não acreditar que aquela pessoa era real, que ela estava a poucos passos de segurar o amor da sua vida em seus braços.

 Amor, sempre foi real.

E Alice correu, chorando, pros braços de Mariane.

Lucas Silvério Martins
Catalão – Goiás
Hello Heartache

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O meu pior lado

Eu não conseguia entender o motivo de tudo aquilo, de toda aquela dor, daquela tristeza. Desde o começo, nós dois sabíamos que éramos como opostos se encontrando e que não daria certo. Ele sempre perfeito, e eu com manias que não conseguia perder com o tempo… Talvez, tenha nos faltado justamente tempo, minutos, segundos a mais pra resolver aquele velho problema que sempre nos rodeava, chamado solidão.

Eu estava inseguro, lamentando, chorando. Essa iria ser a única saída! Nessa altura da vida, já deveria saber que não dava pra ficar mais naquele mundo. Não queria que chegasse a esse ponto, mas eu iria acabar com tudo nessa noite. Propus então, para nós dois, uma ultima caminhada e que depois daquela noite nunca mais voltássemos a nos falar. Uma caminhada para resolver nossa história.

Fomos sem saber bem o que fazer, sem saber o que falar. E enquanto ele queria seu amado whisky, minha cabeça estava tonta, me sentia confuso, parecia que minha mente borbulhava como uma champanhe recém aberta. Eu não sabia bem o que dizer a ele, como explicar que era hora de nos separarmos. Mas eu sabia o que iria fazer. Não iria esperar o fim, iria lhe dar um adeus, mas aquilo iria doer.

Dentre todas as coisas que nós fizemos, quebrar as regras sempre foram as melhores. “Era tão divertido”, ele disse… Mas eu não queria mais, precisava me despedir, precisava sentir a tristeza! Queria apenas quebrar uma ultima regra, fazer uma ultima coisa ruim. Fazer coisas ruins era a nossa especialidade.

Estávamos chegando ao nosso destino final. Uma igreja, que agora estava abandonada, mas foi aonde nos vimos pela primeira vez. Era tudo tão sombrio, uma solidão tão profunda que eu não conseguia nem mesmo chorar! Aquele momento doía. Doía mais que todas as palavras que não dissemos, doía mais que saber que tudo estava acabando. E imaginar o que viria a seguir, me fez de novo ficar confuso, tonto, perdido em mim mesmo. Mas a dor sempre me anestesiava nessa hora. A dor era o meu pior lado e acredite, ela não poderia competir com o melhor lado dele.

Chegamos à igreja como desconhecidos. Pensei: “como tudo começou, tudo iria acabar!”. Eu tinha lhe decorado por inteiro, mas agora, ele era um desconhecido. E em breve, ele também não lembraria mais de mim.

Um ultimo beijo?”, eu pedi.

E ele me deu.

Um grito eu escutei, que logo foi abafado por minha mão. O silencio voltou a reinar. A igreja, como se estivesse de luto, fazia do cenário ainda mais melancólico. A dor compunha com o silencio uma musica de tristeza. Era meu adeus para ele.

Quando a faca caiu ensanguentada, eu vi seu olhar. Olhei enquanto ele caia. Juntei forças, me ajoelhei, lhe dei um beijo na testa e então falei com sinceridade: “Você sempre vai ser muito importante pra mim, meu amor”.

Não deveria ter sido desse jeito, eu não queria chegar a esse ponto. Não era um fim, era um adeus a ele, era o nascimento de uma nova história. Olhei pra ele, pela ultima vez, e finalmente conseguindo chorar disse em voz alta, porém embargada, como se o mundo todo pudesse escutar: Adeus, meu velho amigo, olá, minha companheira tristeza!

Júlia Canella Dias Flor
Porto Alegre – Rio Grande Do Sul
Naked

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Nua

Ela arrumou os cabelos com amor e zelo, cada melena ruiva como uma nota em uma partitura: precisavam ser perfeitas, todas elas, para comporem a obra perfeita. Ela escolheu o vestido como quem descobre a si mesma, babados e rendinhas acentuando cada curva, cada detalhe melancólico daquele corpo que se conhecia.

Um detalhe, porém: ela não tinha rosto. Apalpava desde muito jovem a própria face (ou seria não-face?) para sentir apenas uma superfície lisa, macia e escassa, que apenas servia para confirmar um sentimento de estranhamento em relação ao mundo. O ato de não pertencer adquirira então um sentido terrível, pois não tendo um rosto para chamar de seu, dificilmente teria no futuro uma vida para chamar de sua. Seguia então desde cedo uma existência exilada, tão vazia quanto a própria face, rezando e esperando e ansiando o carnaval.

O carnaval… Repleto de cores vibrantes e uma deliciosa anonimidade, o carnaval oferecia uma alternativa interessante em detrimento de uma não-vida pacífica no exílio. Ela amava o carnaval, amava as máscaras e o brilho e a dança com belos desconhecidos. Nunca se sentira completa e livre para ser ela mesma, mas a liberdade que uma máscara proporcionava, ainda que falsa e ilusória, era melhor do que nada.

Escolhida a máscara que tornaria sua falta de rosto insignificante, ela saiu de casa e dirigiu-se para o baile de carnaval. Aos pares, casais dançavam sob a luz da lua e o brilho dourado dos enfeites de rua; com seus não-olhos, ela fitava os casais encantada, aguardando um impreciso e galante cavalheiro que fosse lhe oferecer a mão para uma valsa.

Leve, um toque em seu ombro quebrou o feitiço da contemplação muda: um rapaz alto, máscara negra e porte gentil, parecia ansioso para se tornar seu par. Com sua não-boca, ela sorriu.

No cerne da celebração carnavalesca, eles valsaram. Ela sentia-se bem como nunca antes; por alguns minutos roubados podia se sentir completa, uma jovem dona de seu próprio rosto e plena em seus sentimentos. Os movimentos dele fluíam para o corpo dela, que completava o ciclo da dança com a graça de uma fada. Quisera ser princesa e quisera ser mulher; no momento, sentia-se feliz em ser ela mesma.

Ao final da valsa, ele a conduziu para longe da massa de dançarinos. Beijou sua mão com lábios falsos de resina, e pediu-lhe como despedida um nome e um beijo nos lábios.

O pânico, seu conhecido, a dominou em instantes; que faria ela agora, uma dama de rosto liso em face de um pedido tão doce? Ela recuou, suas costas pressionadas contra a fachada de um prédio próximo. Ele, mãos ágeis e objetivo firme, retirou-lhe a máscara que era seu único rosto.

Ela caiu de joelhos no chão. Estava nua, exposta ao mundo como nascera: feia, sem face, vazia. Ela tremia e chorava, sua inadequação como um ponto de exclamação gigantesco à vista de todos. Estava nua. Precisava…

Ele apenas a observava. Mesmo de máscara, pareceu sorrir. Ajoelhou-se ao lado dela, apertou seu ombro com uma mão firme, reconfortante. Com seus não-olhos, ela o fitou. Ele havia retirado a máscara: uma imensidão lisa como uma folha de papel a encarou de volta, e por um instante eram espelhos um do outro. Completos. Nus. Expostos.

Estava nua, mas nunca se sentira tão certa.

Em uma rua afastada, longe da euforia do carnaval, dois pares de não-lábios encontraram-se. Estava selado o destino.

Leonardo Ruli
Birigui – São Paulo
Things I’ll Never Say

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Marcela já estava acostumada com sua rotina: todos os dias acordava cedo, vestia o uniforme da cafeteria onde trabalhava, esperava o ônibus sem saber se reclamava do calor ou agradecia por não estar chovendo. Quando ele chegava, quase nunca tinha lugar e ela fazia todo o percurso de pé. Mas nunca reclamava, afinal, com aquele trabalho pagava a faculdade de psicologia que sempre sonhara em fazer. Ela levava jeito, dizia a mãe.

Quietinha, guardava os sentimentos um a um. Nunca arrumou confusão. Mas tudo aquilo que conhecia sobre ela mesma deixou de ser verdade quando Rodrigo passou a frequentar a cafeteria. Do balcão ela o observava: moreno dos olhos escuros, alto, barba que cultivava há uns três dias. Sempre observador, trazendo embaixo da camisa o jornal. E ali perdia um bom tempo, sem parecer ter pressa, se sentia em casa. Marcela o atendia sorrindo, mais por sua gentileza natural do que por estar atendendo o homem que esperava todas as manhãs. Anotava o pedido, embora já soubesse sobre o pão com manteiga e o café sem açúcar, assim como o dela. Apoiava os braços sobre o balcão e desejava que ninguém mais passasse por aquela porta durante aqueles pequenos minutos onde Rodrigo era só seu. Observava a imagem da xícara refletida em seus olhos e acabava por se perder naquela escuridão que não lhe trazia medo algum.

Eram só os dois, ele pareceu acenar. Ela foi a seu encontro e viu as palavras escorregarem de sua boca. Em instantes ela estava parada em frente a ele e havia dito tudo sobre como o admirava e aguardava ansiosamente por ele todos os dias. Ele, sem graça, sorriu, e os dois conversaram à respeito de muita coisa, descobriram um universo de afinidades muito além do café sem açúcar. Trocaram telefones antes dele sair e o dia passou em um instante, assim como tantos outros depois daquele.

Anos depois, ela estava ali, vestida de branco, caminhando em sua direção no altar, ouvindo ao longe a mesma música que embalou seu primeiro encontro naquela cafeteria. E disseram sim, agora eram marido e mulher. Vieram os filhos, as lutas diárias, as dificuldades. Venceram todas elas, viram ela se tornar uma grande psicóloga. Rodrigo e Marcela ainda estavam juntos para pegar no colo o primeiro neto e quando ela partiu ele ainda segurava sua mão.

O sino da porta tocou trazendo Marcela de volta ao balcão. Alguém entrara na cafeteria e ele continuava mexendo seu café vagarosamente. Retomou a postura, atendeu o novo cliente com sua simpatia ímpar e viu por trás do ombro Rodrigo deixar a mesa. Recolheu os pratos e por um instante se arrependeu por nunca ter coragem de dizer aquelas coisas e deixar seus sonhos esfriarem pouco à pouco, como o restinho de café que ele sempre deixava no fundo da xícara.

Pedro Amoroso Valera
Birigui – São Paulo
Fly

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Dormir era acordar para outros mundos, ela sabia disso melhor do que ninguém. Passava o dia ansiosa pelo momento de repousar, poder fechar os olhos e abrir a mente em outro lugar diferente. Não esse aqui, que havia lhe tirado tão cedo a força de suas pernas, esse em que ainda quando criança adoeceu e viveu desde então presa à uma cadeira de rodas. Não esse, onde nunca mais se sentira parte. Esse mundo a havia abandonado muito tempo atrás, mas ela ainda se lembrava das paredes do consultório, do passo lento do médico em sua direção, do silêncio ensurdecedor da mãe quando ouvira que sua filha não andaria mais. Havia chances de cura, eles diziam, mas eram mínimas. E a cada dia que passava ela se acostumava mais com a imagem refletida no espelho. Sonhar se tornara um presente divino, embora nem todas as noites ela tivesse esse privilégio. Mas aquele dia era especial, era seu aniversário. Assim, mal se deitou e já estava longe… O vento impulsionava suas asas, que a levaram cada vez mais alto. Olhara de cima e achava graça ao ver as pessoas como se fossem formigas, sentia o sol reluzir em seus cabelos. Admirava, lá de cima, tons de verde que pintavam o cenário. Aquilo não podia ser o mundo real, ela concluiu. Crianças gargalhavam tão alto que podia ouví-las, as pessoas eram tão carinhosas que podia sentir-se abraçada, envolta em tanto amor. Naquele mundo, ninguém conheceu a guerra ou a fome. Ninguém sabia o que era adoecer. Esse era seu mundo. Durante os sonhos ela fazia parte dele, e quando acordava, ele passava a fazer parte dela: tinha um lugar especial em seu coração e essa lembrança a enchia de força. Ela nunca mais sentiria suas pernas, jamais voltaria a correr. Mas honestamente não se importava, porque em seu mundo podia voar.

Renann Soares
Fortaleza – Ceará
Slipped Away

LEIA
Gabriel,
Hoje eu acordei e me dei conta de que você não vai acordar. Fico me perguntando o porquê e não posso aguentar isso… Aconteceu e você se foi. Nunca esquecerei da primeira vez em que você me beijou, era tarde da noite quando saíamos de um restaurante, durante o percusso até o carro, começou a chover e você me beijou lentamente enquanto me encostava no carro.
Vivi os melhores momentos da minha vida ao seu lado, lutamos contra tudo e contra todos para levar o nosso amor adiante. E agora estou aqui sem você… Para quem contarei todas minhas trapalhadas durante o dia? Quem irá reclamar das minhas manias? Com quem dividirei pizza com bastante azeitona? Quem defenderá minha obsessão pela hello kitty? Quem me dará colo quando eu mais precisar? Quem me fará rir quanto estiver para baixo?
Estas são algumas das perguntas que faço todos os dias. Nossa casa nunca mais será a mesma sem você, toda energia positiva e alegria foram embora junto contigo. Na calada da noite, recordo de seus passos barulhentos quando chegava em casa para me dar aquele abraço apertado, de sua risada contagiante que fazia qualquer pessoa sorrir e do seu cheiro que me enlouquecia. As pessoas falam que ficarei “bem”, mas como ficarei bem sem tê-lo aqui do meu lado? O grande amor da minha vida se foi.
Eu não encontrei a ocasião para dar um beijo de despedida,  eu gostaria de poder vê-lo novamente e eu sei que não posso… Eu espero que você possa me ouvir, porque eu lembro claramente o dia em que você partiu. Você disse baixinho que me amava e vi seu último suspiro. O que me conforta é saber que você foi muito feliz ao meu lado e que agora está em um lugar melhor. Quero que saiba que te amei todos os dias, horas, minutos e segundos desde que te conheci. Meu maior desejo é vê-lo novamente e dizer o quanto te amo, mas sei que não posso trazê-lo de volta.
Doei parte da nossa herança para instituições de pesquisas que buscam a cura da Esclerose Lateral Amiotrófica, torço para que descubram logo a cura e que ninguém mais passe pelo o que eu e outras pessoas passamos. Estou com malas prontas e prestes a viajar para Napanee (sim, a cidade que tu sonhavas em conhecer), enviei seu livro para várias editoras de lá e recebi proposta irrecusáveis. Farei com que o mundo conheça seu talento e saibam o grande homem que tu eras.
Com muito amor, do seu Little Song Bird.




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